A Digital Networks Act está prestes a mudar o jogo na Europa, prometendo uma infraestrutura digital mais robusta e acessível. Como isso impactará a IA e as startups? Vamos explorar!
A Digital Networks Act da Europa: Um Novo Capítulo para IA e Startups?
A Europa está em plena corrida para a era da Inteligência Artificial, e seus legisladores estão desenhando as bases para o futuro digital do continente. A proposta da Comissão Europeia, a Digital Networks Act (DNA), promete remodelar o cenário das telecomunicações na União Europeia, com grandes impactos na infraestrutura de IA, na equidade de conectividade e no ecossistema de startups. Publicada em 22 de janeiro de 2026, esta iniciativa busca modernizar a forma como as redes são construídas e reguladas, desde as torres 5G em áreas rurais até as conexões de fibra entre data centers.
O Contexto da Revolução na Conectividade Europeia
Por muitos anos, os líderes da UE têm buscado um verdadeiro mercado único para serviços digitais. A DNA é uma peça central dessa estratégia, alinhando-se com as metas da Década Digital da Europa, que visam internet de alta velocidade universal até 2030. Bruxelas quer transformar os 27 sistemas nacionais de telecomunicações em uma rede coesa e sem emendas. O objetivo principal da Lei é “harmonizar o setor de conectividade da UE, abordando atrasos, inconsistências e fragmentação”, removendo barreiras e estimulando investimentos em redes de altíssima capacidade.
Essa reforma não surge do nada. Um documento da Comissão de 2024 alertou que, sem uma infraestrutura digital de ponta, a economia digital europeia estagnaria. Redes seguras e sustentáveis são um dos “pontos cardeais” da agenda digital da UE para 2030. A DNA é a tentativa de Bruxelas de atender a essas necessidades, impulsionando o investimento, padronizando regras e garantindo que todos na Europa possam aproveitar as oportunidades da era digital.
Investimento em Telecomunicações: Benefícios e Compromissos
Em sua essência, a Digital Networks Act oferece aos operadores de telecomunicações algumas vantagens há muito desejadas. Uma medida de destaque concederia às operadoras licenças de espectro de rádio ilimitadas, encerrando a era dos leilões que forçam as empresas a renovar periodicamente seus direitos. Para as grandes provedoras de telefonia móvel da Europa, essa mudança traz segurança: elas podem investir em redes 5G e futuras 6G sem o receio de que seu espectro expire. Os reguladores argumentam que isso “aumentará a previsibilidade dos investimentos” e acelerará a implantação das redes.
No entanto, há uma condição. A DNA vincula as licenças permanentes a obrigações de “usar ou compartilhar” para evitar o acúmulo. Se uma operadora não estiver usando seu espectro em uma região rural, por exemplo, ela poderá ser forçada a compartilhá-lo ou perdê-lo, permitindo que um concorrente ou uma rede comunitária atenda àquela área. É um aceno à equidade de conectividade: a Europa não quer que o escasso espectro sem fio fique ocioso enquanto algumas comunidades permanecem sem serviço. “Banda larga para todos” é o lema, e as licenças de longo prazo virão com a responsabilidade de entregar cobertura.
Supervisão e Desafios Políticos
Outra cláusula da DNA intensifica a supervisão de empresas dominantes. Pelos planos atuais, se uma operadora de telecomunicações detiver poder de mercado significativo (SMP) em um setor (como banda larga fixa), os reguladores poderiam estender essa designação a um mercado relacionado (como serviços móveis). Na prática, isso significa que grandes empresas podem enfrentar obrigações extras, desde transparência até controle de preços, em toda a sua gama de serviços. A ideia é impedir que gigantes usem sua dominância em uma área para sufocar a concorrência em outra, abrindo espaço para provedores menores e ISPs inovadores.
Nem todos aplaudem essas medidas. Um grupo de seis estados-membros, incluindo França, Alemanha e Itália, manifestou resistência, pedindo a Bruxelas que não centralize o controle sobre frequências e fusões. Os leilões de espectro sempre foram vistos como um território nacional (podem encher os cofres do Estado), e as capitais estão cautelosas com regras padronizadas vindas da UE. Esses governos também temem que incentivar fusões pan-europeias de telecomunicações (outra ideia da reforma) possa reduzir a concorrência interna. Em seu memorando conjunto, eles alertam que, embora um campo de jogo nivelado entre empresas de telecomunicações e tecnologia seja um objetivo louvável, “isso não implica necessariamente que as mesmas regulamentações devam se aplicar” a ambos os setores. Isso nos lembra que a DNA, apesar de seus ideais de mercado único, precisa lidar com realidades políticas: a revolução das telecomunicações na Europa não acontecerá sem consenso entre mercados nacionais muito diferentes.
Neutralidade da Rede e a Batalha pela “Parte Justa”
Talvez o debate mais controverso em torno da Digital Networks Act tenha sido sobre quem paga pelas redes de próxima geração. As gigantes das telecomunicações têm feito lobby por anos por uma contribuição de “parte justa” das Big Tech, argumentando que serviços que consomem muita largura de banda, como Netflix, YouTube e plataformas de nuvem, deveriam contribuir para financiar a infraestrutura que transporta seu conteúdo.
O projeto de lei evita qualquer “taxa de uso de rede” direta sobre os provedores de conteúdo. Em vez disso, reafirma o compromisso da Europa com a neutralidade da rede, o princípio de que todo o tráfego da internet deve ser tratado igualmente pelos provedores. Qualquer cooperação com a Big Tech dependerá de discussões voluntárias de “melhores práticas” moderadas pelos reguladores da UE, e não de pagamentos legalmente obrigatórios. Essa decisão veio após intensa oposição de várias frentes. No final de 2025, um acordo comercial entre EUA e UE obteve de Bruxelas a promessa de “não adotar ou manter taxas de uso de rede”, destacando os riscos geopolíticos de visar principalmente empresas de tecnologia americanas.
Por outro lado, startups e defensores dos direitos digitais respiraram aliviados com a postura da Comissão. A Allied for Startups, uma coalizão de empreendedores europeus, argumentou que a neutralidade da rede é essencial para o crescimento das startups, evitando uma internet de duas camadas que “favoreceria os players dominantes” e aumentaria as barreiras para os recém-chegados. Em sua visão, um “imposto sobre o tráfego” não se trata apenas do lucro do Google ou da Amazon; ele criaria um precedente prejudicial que poderia excluir os pequenos que dependem de largura de banda acessível e de acesso igualitário para inovar. Ao manter a DNA livre de taxas de rede explícitas, a Europa sinaliza que a internet aberta não será um dano colateral na busca por uma infraestrutura melhor.
Redes para uma Europa Impulsionada pela IA
Além das salas de reunião das telecomunicações e dos balanços de Silicon Valley, a Digital Networks Act trata, em última análise, do tipo de sociedade digital que a Europa deseja construir. Uma motivação importante é a preparação para um futuro onde a inteligência artificial, a computação em nuvem e os dispositivos IoT serão onipresentes, exigindo largura de banda e baixa latência sem precedentes. A própria análise da Comissão enfatiza que somente com redes de “mais alto desempenho” tecnologias transformadoras como IA, veículos autônomos, telemedicina e redes inteligentes atingirão seu potencial. Em termos simples: se os dados são o novo petróleo, a Europa precisa de tubulações melhores para bombeá-lo.
A Digital Networks Act se alinha com o impulso tecnológico mais amplo da Europa, focando na infraestrutura que a IA precisa para escalar. Além de regulamentar a IA, a UE está investindo em redes de próxima geração, de fibra a 5G e 6G, por meio de iniciativas como a Smart Networks and Services Joint Undertaking. Uma implantação mais rápida dessas redes sustentaria tudo, desde a indústria impulsionada pela IA até os serviços em nuvem, todos dependendo de conectividade de alta capacidade e transfronteiriça.
Startups e o Ecossistema de Inovação
Do ponto de vista das startups e inovadores da Europa, a DNA é uma faca de dois gumes que se inclina de forma promissora para a oportunidade. Por um lado, o impulso da Lei para harmonizar as regras de telecomunicações poderia derrubar barreiras que há muito frustram as empresas jovens. Hoje, uma startup de serviços em nuvem ou um fabricante de dispositivos IoT na Europa precisa navegar por um labirinto de regulamentações nacionais ao expandir, desde diferentes padrões de rede até requisitos de certificação separados em cada país. Ao criar uma estrutura mais unificada (por exemplo, regras comuns sobre espectro e acesso à infraestrutura), a DNA poderia facilitar para uma startup em Portugal expandir seus serviços para a Polônia ou Finlândia sem encontrar 27 diferentes obstáculos regulatórios.
As startups dependem de uma internet aberta e previsível, e nesse aspecto a abordagem da Comissão oferece alguma tranquilidade. Ao preservar a neutralidade da rede e rejeitar novas taxas de rede, a Lei permite que as empresas jovens alcancem os usuários em condições de igualdade, sem o risco de que rivais com mais recursos possam comprar tratamento preferencial. Para pequenas startups de fintech ou IA, evitar custos adicionais de rede é importante, e sob a proposta atual, elas não serão solicitadas a arcar com eles. Ao mesmo tempo, os fundadores estão lendo as letras miúdas com atenção. Propostas sobre um “campo de jogo nivelado” levantam preocupações de que a regulamentação no estilo das telecomunicações possa se estender a serviços digitais, incluindo plataformas menores. O equilíbrio permanece frágil: regular muito pouco e os players dominantes sufocam os desafiantes; regular muito amplamente e os custos de conformidade podem sufocar a próxima geração de empresas de tecnologia europeias.
Um Caminho Cauteloso para o Futuro
Como um ambicioso projeto para a infraestrutura digital da Europa, a Digital Networks Act representa um cuidadoso ato de equilíbrio. Ela precisa atrair as operadoras de telecomunicações para gastar os bilhões necessários para atualizar as redes para um futuro impulsionado pela IA, mas não às custas da internet aberta ou de novos desafiantes. Ela busca unificar o mercado de conectividade da Europa, respeitando que uma solução única pode não servir para todos em uma União de 27 membros. Nos próximos meses, legisladores da UE e estados-membros debaterão e ajustarão a proposta, e os riscos são altos.
O resultado moldará não apenas quem arca com a conta das redes de próxima geração da Europa, mas também quem poderá inovar nessas redes nos próximos anos. Haverá obstáculos nesse caminho, resistência de poderosos lobbies de telecomunicações, disputas entre capitais e Bruxelas, e possivelmente até atritos transatlânticos. No final, a Digital Networks Act trata do lugar da Europa no mundo digital. Um continente que foi pioneiro nos padrões móveis GSM e defendeu a privacidade dos dados agora quer definir o padrão para redes equitativas e favoráveis à inovação. Encontrar um equilíbrio entre investimento e justiça, entre escala e concorrência, não será fácil. Mas é essencial. Se a UE for bem-sucedida, a recompensa poderá ser uma espinha dorsal digital resiliente, capaz de apoiar avanços em IA e crescimento econômico em todas as suas regiões, sem deixar para trás seus valores essenciais. Se tropeçar, a Europa corre o risco de ficar “em buffer” enquanto outros avançam. O debate que se aproxima revelará se a Europa pode realmente remodelar seu DNA digital para melhor, ou se antigas divisões atrasarão este grande projeto de conectividade. De qualquer forma, o mundo estará observando o próximo passo da UE nesta reinicialização de alto risco das telecomunicações.






Givanildo Albuquerque